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MORNA, DE DANIEL FILIPE
Praia,
7 Março – Muito se tem esquecido (mesmo em Cabo Verde) que Daniel Filipe era
cabo-verdiano. Nasceu na ilha da Boa Vista em 1925 e bom seria que nesta ilha
fosse recordado o grande poeta (que, inevitavelmente, tinha nacionalidade
portuguesa) que deu pelo nome de Daniel Damásio Ascensão Felipe. Ainda muito
novo, seguiu para Lisboa, onde se fez jornalista, trabalhando na então Emissora
Nacional e onde dirigiu um programa com a designação de “A Voz do Império”. As
suas ideias políticas – era opositor ao regime de Salazar – fizeram que fosse
perseguido e despedido: foi preso e torturado pela polícia política, a
famigerada PIDE. Iniciou a sua actividade literária em 1946 com Missiva,
seguindo-se Marinheiro em Terra (1949), O Viageiro Solitário (1951), Recado para
a Amiga Distante (1956), A Ilha e a Solidão (1957) – Prémio Camilo Pessanha; o
romance O Manuscrito na Garrafa (1960), A Invenção do Amor (1961) e Pátria,
Lugar de Exílio (1963). Estes dois últimos livros, de forte pendor penfletário,
granjearam-lhe fama: estiveram proibidos, mas eram lidos e ditos em segredo. Foi
co-director dos cadernos “Notícias do Bloqueio” e colaborou também assiduamente
na revista “Távola Redonda”. Apoiou a candidatura à Presidência da República
portuguesa do “general sem medo”, Humberto Delgado, o que lhe trouxe mais
amargos de boca – esse tempo de campanha eleitoral, que terminou numa enorme e
escandalosa burla praticada pelos sicários de Salazar, está patente no seu único
livro de ficção, “Manuscrito na Garrafa”. Faleceu em 1964, em Lisboa (e não,
como algumas vezes aparece referido, em Cabo Verde). A memória das raízes
transparece de quando em quando na sua poesia, como nesta “Morna” (do seu livro
“A Ilha e a Solidão”) que hoje publicamos, na qual parece ressoar algo do nosso
Eugénio Tavares. Poeta cabo-verdiano, Daniel Filipe foi sem dúvida.
MORNA
É já
saudade a vela, além.
Serena, a
música esvoaça
na tarde
calma, plúmbea, baça
onde a
tristeza se contém.
Os pares
deslizam embrulhados
de sonhos
em dobras inefáveis.
(Ó deuses
lúbricos, ousáveis
erguer,
então, na tarde morta
a eterna
ronda de pecados
que ia
bater de porta em porta)
E ao ritmo
túrbido do canto
na solidão
rubra da messe
deixo
correr o sal e o pranto
- subtil e
magoado encanto
que o
rosto núbul me envelhece.
Daniel Filipe
Insónia
Entanto, enquanto dói,
ouçamos folhetins (de rádio ou doutros):
(cavalgam pelo écran fotogénicos potros
e a rapariga beija o seu cow-boy).
A solidão é chaga que rói, rói?
Não pode a vida suportar o mito?
(Devora as unhas o espectador aflito,
não vá morrer de tiro ou tédio o herói).
E há quem diga que o diabo foi
o responsável desta história toda.
(Nem fomos convidados para a boda
leia-se FIM – da moça e do cow-boy).
Daniel
Filipe nasceu na Ilha da
Boavista, Cabo Verde, em 1925. Morreu novo, em 1960, mas deixou
uma obra consistente marcada pelos sentimentos de solidão e exílio.
Veio para Portugal ainda criança, onde acabaria por concluir o
Curso Geral dos Liceus. Colaborador das revistas Távola
Redonda e Notícias do Bloqueio, estreou-se em livro
no ano de 1949 com Missiva. A sua obra mais conhecida é
porventura A invenção do Amor e Outros Poemas, publicada
em 1961, após a edição de uma novela, O manuscrito na garrafa,
e o Prémio Camilo Pessanha, pelo livro a Ilha e a solidão
(escrito sob o pseudónimo de Raymundo Soares), no ano de 1956.
Combatente da ditadura salazarista, foi perseguido e torturado
pela PIDE. Trabalhou na extinta Agência-Geral do Ultramar e na
área jornalística. Grande parte da poesia de Daniel Filipe destaca-se
pelo combate ideológico e pelo comprometimento social, o que lhe
valeu o estigma de poeta neo-realista.
fonte: http://www.liberal.sapo.cv
http://antologiadoesquecimento.blogspot.com/2005/12/entanto-enquanto-di-ouamos-folhetins.html
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