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Sunday, September 05, 2010

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MORNA, DE DANIEL FILIPE

Daniel FilipePraia, 7 Março – Muito se tem esquecido (mesmo em Cabo Verde) que Daniel Filipe era cabo-verdiano. Nasceu na ilha da Boa Vista em 1925 e bom seria que nesta ilha fosse recordado o grande poeta (que, inevitavelmente, tinha nacionalidade portuguesa) que deu pelo nome de Daniel Damásio Ascensão Felipe. Ainda muito novo, seguiu para Lisboa, onde se fez jornalista, trabalhando na então Emissora Nacional e onde dirigiu um programa com a designação de “A Voz do Império”. As suas ideias políticas – era opositor ao regime de Salazar – fizeram que fosse perseguido e despedido: foi preso e torturado pela polícia política, a famigerada PIDE. Iniciou a sua actividade literária em 1946 com Missiva, seguindo-se Marinheiro em Terra (1949), O Viageiro Solitário (1951), Recado para a Amiga Distante (1956), A Ilha e a Solidão (1957) – Prémio Camilo Pessanha; o romance O Manuscrito na Garrafa (1960), A Invenção do Amor (1961) e Pátria, Lugar de Exílio (1963). Estes dois últimos livros, de forte pendor penfletário, granjearam-lhe fama: estiveram proibidos, mas eram lidos e ditos em segredo. Foi co-director dos cadernos “Notícias do Bloqueio” e colaborou também assiduamente na revista “Távola Redonda”. Apoiou a candidatura à Presidência da República portuguesa do “general sem medo”, Humberto Delgado, o que lhe trouxe mais amargos de boca – esse tempo de campanha eleitoral, que terminou numa enorme e escandalosa burla praticada pelos sicários de Salazar, está patente no seu único livro de ficção, “Manuscrito na Garrafa”. Faleceu em 1964, em Lisboa (e não, como algumas vezes aparece referido, em Cabo Verde). A memória das raízes transparece de quando em quando na sua poesia, como nesta “Morna” (do seu livro “A Ilha e a Solidão”) que hoje publicamos, na qual parece ressoar algo do nosso Eugénio Tavares. Poeta cabo-verdiano, Daniel Filipe foi sem dúvida.

MORNA

É já saudade a vela, além.

Serena, a música esvoaça

na tarde calma, plúmbea, baça

onde a tristeza se contém.

Os pares deslizam embrulhados

de sonhos em dobras inefáveis.

(Ó deuses lúbricos, ousáveis

erguer, então, na tarde morta

a eterna ronda de pecados

que ia bater de porta em porta)

E ao ritmo túrbido do canto

na solidão rubra da messe

deixo correr o sal e o pranto

- subtil e magoado encanto

que o rosto núbul me envelhece.

Daniel Filipe

 

Insónia
 
Entanto, enquanto dói,
ouçamos folhetins (de rádio ou doutros):
(cavalgam pelo
écran fotogénicos potros
e a rapariga beija o seu cow-boy).

A solidão é chaga que rói, rói?
Não pode a vida suportar o mito?
(Devora as unhas o espectador aflito,
não vá morrer de tiro ou tédio o herói).

E há quem diga que o diabo foi
o responsável desta história toda.

(Nem fomos convidados para a boda
leia-se FIM – da moça e do cow-boy).

 

Daniel FilipeDaniel Filipe nasceu na Ilha da Boavista, Cabo Verde, em 1925. Morreu novo, em 1960, mas deixou uma obra consistente marcada pelos sentimentos de solidão e exílio. Veio para Portugal ainda criança, onde acabaria por concluir o Curso Geral dos Liceus. Colaborador das revistas Távola Redonda e Notícias do Bloqueio, estreou-se em livro no ano de 1949 com Missiva. A sua obra mais conhecida é porventura A invenção do Amor e Outros Poemas, publicada em 1961, após a edição de uma novela, O manuscrito na garrafa, e o Prémio Camilo Pessanha, pelo livro a Ilha e a solidão (escrito sob o pseudónimo de Raymundo Soares), no ano de 1956. Combatente da ditadura salazarista, foi perseguido e torturado pela PIDE. Trabalhou na extinta Agência-Geral do Ultramar e na área jornalística. Grande parte da poesia de Daniel Filipe destaca-se pelo combate ideológico e pelo comprometimento social, o que lhe valeu o estigma de poeta neo-realista.
 

 

fonte:  http://www.liberal.sapo.cv

       

http://antologiadoesquecimento.blogspot.com/2005/12/entanto-enquanto-di-ouamos-folhetins.html

 

 

 

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