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TEIXEIRA DE SOUSA

 

02-04-06

http://asemana.cv/IMG/arton16384.jpgHENRIQUE TEIXEIRA DE SOUSA

S. Lourenço, 1919 - Oeiras, 2006

Quase um século entre a medicina e a cultura

 

Medicina e cultura. Henrique Teixeira de Sousa atravessou quase um século equilibrando-se entre estas duas áreas. Fez os milagres que os médicos do seu tempo tinham de fazer, quando havia apenas um para toda uma ilha; especializou-se em nutrição, numa altura em que as fomes devastavam Cabo Verde periodicamente.

Produziu oito romances que são verdadeiras reportagens dado o feitio realista que sempre o caracterizou, sem contar as recolhas da tradição oral que fixou em texto.

Ao longo da sua longa vida profissional - até ao fim atendeu os seus clientes diariamente no seu consultório em Oeiras - passaram pelo seu gabinete personagens históricos da cultura cabo-verdiana. Como, por exemplo, Príncipe de Ximento e Ana Procópio, quando era um jovem médico no Fogo. Enquanto estudante em Lisboa, nos anos 40, encontrou-se com B.Léza, já paralítico, para quem tentou marcar uma consulta com o célebre Egas Moniz.

Desde criança gostava de ouvir histórias do povo, dizia em entrevista ao A Semana no ano passado, por ocasião do lançamento do seu último livro. “Os meus colegas diziam-me: `Tu deves ir para a Faculdade de Letras’. E eu respondia: `Não, eu gosto é das Ciências Naturais’.

É verdade, desde criança que sonhava ser médico e eles sabiam disso, mas não havia meio de os convencer. Sabe, as pessoas não têm apenas uma tendência. Podem ter tendências várias sem que uma brigue com a outra. Inclusive, como médico venho conhecendo cada vez mais a psicologia humana, o que também me dá uma certa ajuda na elaboração das minhas personagens”.

Nascido na localidade de S. Lourenço, na ilha do Fogo, faz os seus estudos de Medicina em Portugal, concluindo-os em 1945. No ano seguinte parte para Timor, e é em 1949 que regressa à sua ilha, onde vai encontrar o edifício construído para ser hospital transformado num albergue dos flagelados pela fome.

Consegue o seu realojamento, relatou-nos numa entrevista em 2004, e implanta finalmente o hospital, e mais tarde uma maternidade. Em 1954, com uma bolsa de estudos, parte para França, onde se especializa em nutrição. Produz vários textos sobre este tema. São dois anos na Europa, após os quais fixa-se em S. Vicente, onde será o presidente da Câmara Municipal, de 1959 a 1965. Em 1975, passa a residir em Portugal definitivamente.

Na entrevista ao A Semana em 2005, o escritor manifestava o que lhe faltava produzir em termos literários: “Só não sei se os anos da minha vida me chegam para escrever”, referia, indicando duas histórias, uma das quais sobre o avô, um grande proprietário na localidade de S. Jorge.

O outro tema, “bastante lírico”, nas suas palavras, teria como título o verso de uma morna de Amândio Cabral - Na Madrugada dos Teus Olhos. Mesmo sem ter tido tempo de escrever esses dois livros, o incansável Teixeira de Sousa fica para a literatura cabo-verdiana como um dos seus autores mais produtivos.

Num comunicado em que exprimiu o seu “profundo pesar” pelo seu falecimento, o Governo salientou que Teixeira de Sousa “foi um escritor cioso dos valores da cabo-verdianidade e das marcas matriciais do viver cabo-verdiano”.

Apontando a sua trajectória “marcada pela coerência cívica, patriótica e intelectual”, o comunicado assinado pelo ministro da Cultura salienta que personagens, momentos e aspectos dos seus livros “ficarão para sempre inscritos na memória colectiva dos cabo-verdianos e que, por isso, já são preciosos patrimónios culturais a preservar e valorizar”.

Por sua vez, o presidente Pedro Pires, manifestou o seu profundo pesar pela morte do escritor, “portador de uma escrita cativante e vigorosa” e que lega à cultura cabo-verdiana, diz o comunicado, “um património de inexcedível valor no domínio da literatura, impondo-se como um dos expoentes máximos da cabo-verdianidade”.

O presidente da Associação de Escritores Cabo-Verdianos (AEC), Corsino Fortes, considerou, que a grande homenagem que se pode fazer a Teixeira de Sousa, é “concitar os jovens a lerem a sua obra” e fazer tudo para que a “sua obra seja divulgada com a maior extensão possível”.

Em declarações à Inforpress, Fortes referiu-se a Teixeira de Sousa como “um homem muito sui generis”, porque, como explicou, ele “começa a tecer uma literatura na base de um estudo sociológico e com uma profunda noção filosófica sobre essa estrutura social”.

O presidente da Associação Portuguesa de Escritores, José Manuel Mendes, referiu-se a Teixeira de Sousa “como um ficcionista de largo fôlego”, cuja formação científica e humanista “o singularizam peculiarmente no contexto das literaturas em língua portuguesa”.

Ilhéu de Contenda, a sua obra mais conhecida, adaptada para o cinema por Leão Lopes nos anos 90, surgiu de forma embrionária na segunda metade dos anos 40 e chegou a ter título - Sobrado, refere o escritor, num dos seus artigos no jornal Terra Nova, de que era colaborador. Foi cerca de 30 anos depois, a residir em S. Vicente, que retomou a história, contando com o estímulo de Nho Roque (António Aurélio Gonçalves).

Os últimos anos do salazarismo não seriam favoráveis à publicação, pelo que foi só depois do 25 de Abril que começou a percorrer as editoras para a publicação, o que veio a ocorrer em 1978.

Gláucia Nogueira

Obras publicadas

FICÇÃO

-   Contra Mar e Vento, Lisboa, Prelo, 1972 (contos).

-   Ilhéu de Contenda, Lisboa, Editorial O Século, 1978. Reed. em 1979 pela Europa-América e em 1984 pela Ática (S. Paulo, Brasil), (romance).

-   Capitão de Mar e Terra, Lisboa, Europa-América, 1984 (romance).

-   Xaguate*, Lisboa, Europa-América, 1987 (romance).

-   Djunga, Lisboa, Europa-América, 1990. (romance).

-   Na Ribeira de Deus*, Lisboa, Europa-América, 1992 (romance).

-   Entre Duas Bandeiras, Lisboa, Europa-América, 1994 (romance).

-   Oh! Mar de Túrbidas Vagas, S. Vicente, Ilhéu, 2005 (romance).

* Compõem uma trilogia com Ilhéu de Contenda

OUTRAS OBRAS, segundo Manuel Ferreira em A Aventura Crioula:

“Da Claridade à Certeza”, in Certeza - folha da Academia, n.° 2. S. Vicente, Junho 1944.

O problema alimentar em Cabo Verde. Praia, Cabo Verde, Imprensa Nacional, 1954.

Cabo Verde e a sua gente. Praia, Cabo Verde, Imprensa Nacional, 1959.

Mais de cinco anos na presidência da Câmara Municipal de S. Vicente. Ed. do Autor. Águeda, Gráfica Ideal, s/d.

Em Claridade:

-  “A estrutura social da ilha do Fogo em 1940”, Claridade n.° 5, Setembro 1947.

-  “Sobrados, lojas e funcos. Contribuição para o estudo da evolu¬ção social da ilha do Fogo”, n.° 8, Maio 1958.

Em Cabo Verde - Boletim de Propaganda e Informação:

-  “Recolhas folclóricas - curcutiçam (ilha do Fogo), n.°s 63 (Dez. 1954) e 67, (Abril 1955);

-  “A emigração para S.Tomé”, n.° 65 (Fev. 1955);

-  “A alimentação e saúde nas ilhas de Cabo Verde”, n.° 92 (Maio 1957).

Textos de Teixeira de Sousa encontram-se também em várias colectâneas, a primeira das quais editada em 1942, Contos e Poemas - Modernos Autores Portugueses.

 

Medicina e cultura. Henrique Teixeira de Sousa atravessou quase um século equilibrando-se entre estas duas áreas. Fez os milagres que os médicos do seu tempo tinham de fazer, quando havia apenas um para toda uma ilha; especializou-se em nutrição, numa altura em que as fomes devastavam Cabo Verde periodicamente.

Produziu oito romances que são verdadeiras reportagens dado o feitio realista que sempre o caracterizou, sem contar as recolhas da tradição oral que fixou em texto.

Ao longo da sua longa vida profissional - até ao fim atendeu os seus clientes diariamente no seu consultório em Oeiras - passaram pelo seu gabinete personagens históricos da cultura cabo-verdiana. Como, por exemplo, Príncipe de Ximento e Ana Procópio, quando era um jovem médico no Fogo. Enquanto estudante em Lisboa, nos anos 40, encontrou-se com B.Léza, já paralítico, para quem tentou marcar uma consulta com o célebre Egas Moniz.

Desde criança gostava de ouvir histórias do povo, dizia em entrevista ao A Semana no ano passado, por ocasião do lançamento do seu último livro. “Os meus colegas diziam-me: `Tu deves ir para a Faculdade de Letras’. E eu respondia: `Não, eu gosto é das Ciências Naturais’.

É verdade, desde criança que sonhava ser médico e eles sabiam disso, mas não havia meio de os convencer. Sabe, as pessoas não têm apenas uma tendência. Podem ter tendências várias sem que uma brigue com a outra. Inclusive, como médico venho conhecendo cada vez mais a psicologia humana, o que também me dá uma certa ajuda na elaboração das minhas personagens”.

Nascido na localidade de S. Lourenço, na ilha do Fogo, faz os seus estudos de Medicina em Portugal, concluindo-os em 1945. No ano seguinte parte para Timor, e é em 1949 que regressa à sua ilha, onde vai encontrar o edifício construído para ser hospital transformado num albergue dos flagelados pela fome.

Consegue o seu realojamento, relatou-nos numa entrevista em 2004, e implanta finalmente o hospital, e mais tarde uma maternidade. Em 1954, com uma bolsa de estudos, parte para França, onde se especializa em nutrição. Produz vários textos sobre este tema. São dois anos na Europa, após os quais fixa-se em S. Vicente, onde será o presidente da Câmara Municipal, de 1959 a 1965. Em 1975, passa a residir em Portugal definitivamente.

Na entrevista ao A Semana em 2005, o escritor manifestava o que lhe faltava produzir em termos literários: “Só não sei se os anos da minha vida me chegam para escrever”, referia, indicando duas histórias, uma das quais sobre o avô, um grande proprietário na localidade de S. Jorge.

O outro tema, “bastante lírico”, nas suas palavras, teria como título o verso de uma morna de Amândio Cabral - Na Madrugada dos Teus Olhos. Mesmo sem ter tido tempo de escrever esses dois livros, o incansável Teixeira de Sousa fica para a literatura cabo-verdiana como um dos seus autores mais produtivos.

Num comunicado em que exprimiu o seu “profundo pesar” pelo seu falecimento, o Governo salientou que Teixeira de Sousa “foi um escritor cioso dos valores da cabo-verdianidade e das marcas matriciais do viver cabo-verdiano”.

Apontando a sua trajectória “marcada pela coerência cívica, patriótica e intelectual”, o comunicado assinado pelo ministro da Cultura salienta que personagens, momentos e aspectos dos seus livros “ficarão para sempre inscritos na memória colectiva dos cabo-verdianos e que, por isso, já são preciosos patrimónios culturais a preservar e valorizar”.

Por sua vez, o presidente Pedro Pires, manifestou o seu profundo pesar pela morte do escritor, “portador de uma escrita cativante e vigorosa” e que lega à cultura cabo-verdiana, diz o comunicado, “um património de inexcedível valor no domínio da literatura, impondo-se como um dos expoentes máximos da cabo-verdianidade”.

O presidente da Associação de Escritores Cabo-Verdianos (AEC), Corsino Fortes, considerou, que a grande homenagem que se pode fazer a Teixeira de Sousa, é “concitar os jovens a lerem a sua obra” e fazer tudo para que a “sua obra seja divulgada com a maior extensão possível”.

Em declarações à Inforpress, Fortes referiu-se a Teixeira de Sousa como “um homem muito sui generis”, porque, como explicou, ele “começa a tecer uma literatura na base de um estudo sociológico e com uma profunda noção filosófica sobre essa estrutura social”.

O presidente da Associação Portuguesa de Escritores, José Manuel Mendes, referiu-se a Teixeira de Sousa “como um ficcionista de largo fôlego”, cuja formação científica e humanista “o singularizam peculiarmente no contexto das literaturas em língua portuguesa”.

Ilhéu de Contenda, a sua obra mais conhecida, adaptada para o cinema por Leão Lopes nos anos 90, surgiu de forma embrionária na segunda metade dos anos 40 e chegou a ter título - Sobrado, refere o escritor, num dos seus artigos no jornal Terra Nova, de que era colaborador. Foi cerca de 30 anos depois, a residir em S. Vicente, que retomou a história, contando com o estímulo de Nho Roque (António Aurélio Gonçalves).

Os últimos anos do salazarismo não seriam favoráveis à publicação, pelo que foi só depois do 25 de Abril que começou a percorrer as editoras para a publicação, o que veio a ocorrer em 1978.

Gláucia Nogueira

Obras publicadas

FICÇÃO

-   Contra Mar e Vento, Lisboa, Prelo, 1972 (contos).

-   Ilhéu de Contenda, Lisboa, Editorial O Século, 1978. Reed. em 1979 pela Europa-América e em 1984 pela Ática (S. Paulo, Brasil), (romance).

-   Capitão de Mar e Terra, Lisboa, Europa-América, 1984 (romance).

-   Xaguate*, Lisboa, Europa-América, 1987 (romance).

-   Djunga, Lisboa, Europa-América, 1990. (romance).

-   Na Ribeira de Deus*, Lisboa, Europa-América, 1992 (romance).

-   Entre Duas Bandeiras, Lisboa, Europa-América, 1994 (romance).

-   Oh! Mar de Túrbidas Vagas, S. Vicente, Ilhéu, 2005 (romance).

* Compõem uma trilogia com Ilhéu de Contenda

OUTRAS OBRAS, segundo Manuel Ferreira em A Aventura Crioula:

“Da Claridade à Certeza”, in Certeza - folha da Academia, n.° 2. S. Vicente, Junho 1944.

O problema alimentar em Cabo Verde. Praia, Cabo Verde, Imprensa Nacional, 1954.

Cabo Verde e a sua gente. Praia, Cabo Verde, Imprensa Nacional, 1959.

Mais de cinco anos na presidência da Câmara Municipal de S. Vicente. Ed. do Autor. Águeda, Gráfica Ideal, s/d.

Em Claridade:

-  “A estrutura social da ilha do Fogo em 1940”, Claridade n.° 5, Setembro 1947.

-  “Sobrados, lojas e funcos. Contribuição para o estudo da evolu¬ção social da ilha do Fogo”, n.° 8, Maio 1958.

Em Cabo Verde - Boletim de Propaganda e Informação:

-  “Recolhas folclóricas - curcutiçam (ilha do Fogo), n.°s 63 (Dez. 1954) e 67, (Abril 1955);

-  “A emigração para S.Tomé”, n.° 65 (Fev. 1955);

-  “A alimentação e saúde nas ilhas de Cabo Verde”, n.° 92 (Maio 1957).

Textos de Teixeira de Sousa encontram-se também em várias colectâneas, a primeira das quais editada em 1942, Contos e Poemas - Modernos Autores Portugueses.

 

fonte: asemana

 

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