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Sunday, September 05, 2010

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CORSINO FORTES

 

Biografia

Corsino Fortes nasceu na Ilha de São Vicente, em Cabo Verde, em 1933. Formou-se em Direito (em Lisboa), fez parte de alguns governos de Cabo Verde e foi embaixador em Lisboa. De 2003 a 2006, foi Presidente da Associação dos Escritores de Cabo Verde. Tem vários livros publicados, entre os quais Pão e Fonema e Árvore e Tambor. O poeta é detentor de uma obra considerada inovadora e de valor singular para a trajectória cultural de Cabo Verde, que expressa uma nova consciência da realidade cabo-verdiana e uma nova leitura da própria tradição cultural do Arquipélago.

 

  • De Boca a Barlavento

  • De Boca Concêntrica na  Roda do Sol

  • Girassol

  • Pecado Original

 

DE BOCA A BARLAVENTO

                                I


Esta
     a minha mão de milho & marulho
Este
     o sól a gema E não
     o esboroar do osso na bigorna
                               E embora
O deserto abocanhe a minha carne de homem
E caranguejos devorem
             esta mão de semear
Há sempre
Pela artéria do meu sangue que g
                               o
                               t
                               e
                               j
                               a
                  De comarca em comarca
A árvore E o arbusto
Que arrastam
As vogais e os ditongos
            para dentro das violas


                                II


Poeta! todo o poema:
           geometria de sangue & fonema
Escuto Escuta

Um pilão fala
               árvores de fruto
                    ao meio do dia
E tambores
             erguem
                      na colina
             Um coração de terra batida
E lon longe
Do marulho á viola fria
             Reconheço o bemol
Da mão doméstica
                       Que solfeja

Mar & monção mar & matrimónio
Pão pedra palmo de terra
                     Pão & património


                      (Pão & fonema, 1974)
 


DE BOCA CONCENTRICA NA RODA DO SOL
 
 
Depois da hora zero
E da mensagem povo no tambor da ilha
Todas as coisas ficaram públicas na boca da república
As rochas gritaram árvores no peito das crianças
O sangue perto das raízes
E a seiva não longe do coração
 
E
 
Os homens que nasceram da estrela da manhã
Assim foram
        Árvore & Tambor pela alvorada
Plantar no lábio da tua porta
África
        mais uma espiga mais um livro mais uma roda
Que
Do coração da revolta
A Pátria que nasce
Toda a semente é fraternidade que sangra
 
                                        *
 
A espingarda que atinge o topo da colina
De cavilha & coronha
partida partidas
E dobra a espinha
como enxada entre duas ilhas
E fuma vigilante
o seu cachimbo de paz
Não é um mutilado de guerra
É raiz & esfera no seu tempo & modo
De pouca semente E muita luta.
 
  (in "Vozes poéticas da lusofonia", Sintra, 1999)
 
Abraços de Roma
Enzo


Girassol

Girassol
Rasga a tua indecisão
E liberta-te.

Vem colar
O teu destino
Ao suspiro
Deste hirto jasmim
Que foge ao vento
Como
Pensamento perdido.

Aderido
Aos teus flancos
Singram navios.

Navios sem mares
Sem rumos
De velas rotas.

Amanheceu!

Orça o teu leme
E entra em mim
Antes que o Sol
Te desoriente
Girassol!
 

Pecado Original

Passo pelos dias
E deixo-os negros
Mais negros
Do que a noute brumosa.

Olho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.

Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.

E não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas
Dentro do peito...


 

 

 

 

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