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OS RABELADOS DE SANTIAGO
UM SÍMBOLO DA RESISTÊNCIA
Os rabelados constituem hoje um símbolo da resistência do homem
cabo-verdiano. Localizados principalmente no concelho na preta, a quem os
rabelados devem uma grande fidelidade. Os do Tarrafal, onde se julga terem
surgido os primeiros grupos na textos seguidos nas suas práticas religiosas eram
extraídos de década de 40, esta comunidade de povos foi baptizada de rabelados
por se ter oposto à introdução do novo sistema do ensino da religião católica.
Habitam nas montanhas e lugares de mais difícil acesso onde, no passado, se
refugiaram para se escaparem às perseguíções e torturas a que foram submetidos
por se terem oposto à introdução do novo sistema do ensino da religião católica
em Cabo Verde. Ainda hoje vêem com desconfiança alguém que lhes visita pela
primeira vez.
Estava-se no ano de 1941, quando chegaram ao pais os primeiros padres da
Congregação Espírito Santo, que tomaram a seu cargo e em regime de exclusividade
a assistência religiosa em toda a ilha de Santiago. Estes padres, conhecidos
como os da batina branca, introduziram alterações na celebração das missas,
proibiram certos costumes e actos religiosos que entraram na tradição popular e
se enraizaram, formando como que uma ver dadeira infraestrutura do culto
católico.
Durante largos anos, o povo realizava estes actos religiosos com o apoio dos
seus sacerdotes, isto é, os chamados padres de batina preta, a quem os rabelados
devem uma grande fidelidade. Os textos seguidos nas suas práticas religiosas
eram extraídos de manuais católicos, especialmente do "Relicário Angélico' do
Monsenhor Joaquim Silva Serrano. Com o novo método do ensino da religião
católica, essas práticas antigas foram disciplinadas, restringidas e até banidas.
Os rabelados reagiram a essas inovações e, por isso, passaram a fazer as suas
práticas religiosas tradicionais na clandestinidade. Surgem denúncias da parte
dos catequístas e os rabelados começam a ser perseguidos e presos.
Incompreendidos pela sociedade que os ridicularizou, os rabelados foram
desterrados para diversos pontos do arquipélago com o objectivo de desintegrar
as suas pequenas comunidades. Todavia, as medidas administrativas não
conseguiram abafar a voz desta minoria, detentora de um modo de vida diferente
dos restantes cabo-verdianos.
No passado, viram-se obrigados a constituir grupos coesos a fim de puderem fazer
face a algum perigo que enfrentavam devido às suas oposições em relação ao novo
sistema do ensino da religião católica. Com a morte de um dos mais influentes
rabelados, conhe- cido por Nhónhó Landim, a comunidade dividiu-se em vários
grupos. Esta cisão ficou a dever-se, por um lado, à disputa do pod e, por outro.
devido a divergências de ordem política. O actual chefe da maíora comunidade,
cuja casa de culto fica é Espinho Branco, chama-se Agostinho Gonçalves. Sucedeu
o quando este faleceu em 1978. Aos 20 de idade conheceu amarguras de uma prisão
na companhia do pai e uma irmã.
Conta que durante a prisão, além de castigo corporal, este cinco dias sem comer
e sem beber. Á noite era submetido a interrogatórios, pois pensava-se que o
movimento dos rabelad tinha alguns objectivos políticos.
Aqueles que escaparam da prisão e da deportação eram persegi dos pelos
religiosos locais e ainda por alguns populare Passamos muitas turbulências e
hoje estamos mais calmc graças a Deus", desabafa um rabelado da Lagoa Gemea, un
aldeia situada em Trás-os-Montes, Tarrafal.
Nas conversas com os rabelados nota-se que o orgulho e ressentimento se misturam
por entre várias referências ao pass do e às constantes dores provocadas pela
tortura. Recordam co certa amargura os tempos em que eram perseguidos e degred
dos para outras ilhas. Muitos nem querem ouvir falar deste pa sado que os
obrigou a refugiar-se nas montanhas e lugares de difí cil acesso.
O princípio de independência é um orgulho comum a todos rabelados. Querem ser
independentes, sobretudo em relação Estado. Daí preferirem ganhar menos em
outras actividades de rendimento do que ter o Estado como patrão. A maior parte
dedi ca-se à agricultura, à pesca e ao artesanato. Muitos são bons pedreiros. A
escassez da chuva obrigou-os a descer aos centros urbanos à procura do sustento.
Depois do trabalho, à tardinnha regressam às suas pequenas comunidades onde a
tradição e os costumes são preservados como uma relíquia. Das suas afirmações
depreende-se que a rejeição em relação ao Estado é o facto de, no passado. a
igreja católica, em muitas ocasiões, se ter confundido com o Estado e
vice-versa. E foram precisamente c ministros desta igreja que denunciaram os
primeiros rabelados.
A FÉ INQUEBRANTÁVEL
Dotados de uma fé inabalável, os rabelados percorrem longas distâncias a pé para
assistirem aos cultos. Estas actividades religiosa realizam-se aos sábados e
domingos. Nesses dias, ninguém da comunidade trabalha. Fazem o jejum e só comem
alguma coisa partir das três da tarde.
Em Espinho Branco, onde vive a maior comunidade dos rabelados, ao aproximarem-se
da casa do culto, os grupos começam entoar o hino invocando a bandeira de cinco
chagas como sendo aquela que pertence a Jesus Cristo. A partir do momento em que
se ouve este hino os visitados preparam-se para receber os irmãos vindos de
outras localidades, nomeadamente Achada Bel-Bel, concelho de Santa Cruz.
Durante o cântico seguram numa das mãos a bandeira com a siglas do PAlGC. Os
homens ficam à frente, enquanto as mulhe res, atrás, fazendo o coro. Depois
segue-se uma ladainha curta Terminada esta cerimónia, entram na casa do chefe.
La encon tra-se uma cruz grande à frente da qual os crentes se ajoelham fazem as
suas orações. A habitação, de duas divisórias, é extremamente exígua para caber
tanta gente num dia de culto. No entanto, isso não constitui preocupação para
nenhum rabelado. Defendem que as suas casas não são feitas para luxo. Por isso
são erguidas em estacas e revestidas de ramos de coqueiro e de palha.
O seu apego à tradição, aos usos e costumes tornou-os renitentes às inovações e
às técnicas que o Homem conseguiu ao longo da sua existência. Não escutam a
rádio e tampouco vêem televisão Consideram-nas obras do demónio.
DIAS CONTADOS
O movimento dos rabelados tem os dias contados. O tempo é o maior inimigo. Disto
todos têm a consciência. Os velhos vão desaparecendo e os mais novos já pouco ou
nada ligam à religão. Descem às cidades e procuram mudar de vida. Não viveram as
guerrilhas religiosas e não entendem a razão da luta dos seus pais. Actualmente,
muitos já se reconverteram e o seu passado é apenas uma referência histórica.
Todos os rabelados trazem uma cruz ao pescoço, sinal de cristão. No mesmo fio,
que prende a cruz, enfiam azeviches que acreditam defendê-los de maus olhos.
Não aceitam qualquer tipo de assintência médica. Em caso de necessidade extrema,
recorrem aos hospitais e pagam sempre o serviço prestado. Normalmente curam-se
atravéz de indicações que encontram nos livros como Lunário Perpéctuo. No seu
dia-a-dia utilizam ainda outros livros como Provérbio de Salomão, a Biblia da
infância e o livro através da Biblia.
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